Cultura histórica e cultura da memória em projetos educativos de comemoração da democracia portuguesa

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A comemoração do 25 de Abril de 1974, em contextos educativos portugueses, tornou-se uma prática sociocultural que reflete a preocupação com o crescimento e a normalização dos discursos antidemocráticos. Este artigo analisa as narrativas comemorativas escolares, enquanto exemplo do uso público da História, para compreender como mobilizam a cultura histórica e a cultura da memória para enfrentar este desafio. Os resultados indicam que a identificação com a democracia exige que aquelas duas dimensões, cultura histórica e cultura da memória, integrem um diálogo crítico sobre o que recordamos do passado e do presente, convidando-nos a promover o aprofundamento da democracia e dos seus valores.

Description

As relações temporais entre passado, presente e futuro que se estabelecem nas narrativas comemorativas são uma clara demonstração da cultura histórica oficial que identifica o 25 de Abril como um marco histórico desencadeador da conquista da democracia. Os projetos educativos a elas associados reconhecem os alunos e os agentes educativos como criadores de significados sobre o passado e o presente, incentivando-os a pensar num futuro com uma democracia mais participativa e representativa. A História pública do 25 de Abril fomenta uma cultura da memória na medida em que articula as três dimensões temporais, reconhecendo nos alunos e nos agentes educativos o direito de criar interpretações próprias sobre o passado e participar em debates sobre o conhecimento do passado e da democracia no presente. As narrativas em que confluem cultura histórica e cultura da memória estabelecem uma conexão que responde a um claro uso público do passado, necessário para manter um diálogo construtivo com o conhecimento histórico, para desenvolver propostas educativas que promovam uma análise crítica sobre o que recordamos do passado e do presente, e para convidar à participação cidadã no sentido de aprofundar os valores democráticos. Em trabalhos posteriores, seria importante avaliar o impacto que as narrativas comemorativas tiveram em contextos educativos concretos, investigando os significados que alunos e agentes da comunidade educativa delas extraem. Só dessa forma poderemos saber se as narrativas comemorativas do 25 de Abril têm alguma possibilidade de neutralizar ou erodir o avanço de discursos autoritários e antidemocráticos em Portugal. Nesta linha de investigação, mantivemos uma forte intenção de estabelecer conexões entre estudos sobre a memória e a pedagogia crítica, fundamentadas numa prática dialógica fortemente enraizada no questionamento da História e da cultura dominante (BROWN, 1998). Esta abordagem está em linha com a forma como Freire (1970) entende a educação, isto é, uma ação cultural para a liberdade, baseada num diálogo autêntico com a sociedade, um ato de autoconhecimento mediante o qual uma pessoa pode analisar criticamente a cultura que a moldou, e avançar para a reflexão e a ação positiva no seu mundo.

Bibliographic citation

García Ruiz, C. R., Barroso Hortas, M. J., & Dias, A. G. (2026). Cultura histórica e cultura da memória em projetos educativos de comemoração da democracia portuguesa (1974-2024). Dialogos, 29(3), 124-144. https://doi.org/10.4025/dialogos.v29i3.78176

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